A tentação de esquecer quem somos

quem-somos
Sou uma pessoa até bem informada, leio muito, pesquiso, procuro descobrir os segredos de grandes homens, quem eles são e como fizeram… Interesso-me pela vida de pessoas interessantes, aliás eu amo vidas, principalmente aquelas que podem acrescentar alguma coisa à minha para que eu também tenha como acrescentar à de outros. O fato é que não tive a curiosidade de pesquisar ainda o nome de certas pessoas que fazem a diferença no mundo e alguns deles eu realmente não sei quem são ou o que fazem.
 Eu não sei o nome do homem mais forte da GM, ou da Toyota. Você sabe? Não sei quem está por trás de marcas famosas como a Coca Cola, por exemplo. Será que eles não se interessam em divulgar ou preferem manter o foco na grandeza e na importância daquilo que constroem?

No Brasil eu nunca vi o Roberto Carlos se identificar como “cantor” Roberto Carlos, nem o Pelé se identificando como “jogador” Pelé, ou o Ayrton Senna grifando “Piloto” Ayrton. Mas sabemos que todos são o que são não pela profissão que escolheram, mas pelo resultado que obtiveram nela, ou seja, a obra tem o magnífico poder de identificar o seu autor e somente quem realizou grandes feitos pode ser identificado por eles e aclamado pelo povo como tal. O marketing indiscutivelmente é positivo e a propaganda comprovadamente é a “alma do negócio”, mas como tudo na vida, tem que ser algo verdadeiro. Jogamos dinheiro fora quando insistimos em propagar algo vazio, inferior ou sem consistência.

Quero que saibam que nao sou contra o tratamento natural que recebemos no nosso dia a dia pelo povo que nos ama e respeita. Mas acho triste no evangelho que vivemos hoje, a maneira como algumas pessoas gostam de referenciar seus cargos e posições por arrogância, orgulho e vaidade infantil. É impossível não notar a questão absoluta que alguns fazem em ser reconhecidos pelas credenciais, insistindo em ser mais notórios que a própria obra que realizam. Ontem visitei o site de um pastor do Rio De Janeiro, que até então eu não conhecia – e como desejaria não ter conhecido. Sua foto aparecia nada mais, nada menos que 17 vezes e sua esposa 8 vezes apenas na primeira página. Conheço outros cujos nomes estão escritos até nos latões de lixo que ficam na calçada e suas fotos estampadas nos painéis e luminosos das paredes das igrejas onde presidem.

Quem tem mais intimidade com as redes sociais, realmente vê a coisa complicar. Os perfis são muito bem demonstrativos. As fotos muitas vezes são de cantores cantando com os “olhinhos fechadinhos” e pregadores fazendo de tudo para mostrar a exuberância de um microfone. Os nomes que apresentam é que realmente são um show à parte. Cito alguns: “cantor fulano”, “Missionária fulana”, “Apóstolo fulano”,”Pastor fulano”, “bispo fulano”, “Adoradora fulana”, “Conferencista fulano”, “Compositor fulano”, “presbítero fulano”, “Sonoplasta fulano”, “baterista fulano”, “preletora fulana” e a lista segue ridiculamente…

Há tempos atrás eu presidia uma congregação como pastor e fui duramente repreendido por ter me dirigido a um líder de jovens apenas pelo nome, ele acrescentou imediatamente: “Fulano, não”! “Presidente fulano”, por favor! Há poucos dias tentando enviar uma mensagem para outro líder de jovens, esse presbiteriano, e ao procurar um local onde pudesse redigir o e-mail encontrei uma sequência de botões no menu, mais ou menos assim: Home, Quem Somos, História e “FALAR COM O PRESIDENTE”. Confesso que quase não me senti digno de enviar o e-mail pela importância que a pessoa apresentava.

Lamentavelmente a cultura gospel tem absorvido esse triste hábito que quase não encontramos em outros lugares e isso é de um mau gosto terrível. Além disso, quem é inteligente consegue encontrar explicações nas entrelinhas.

Há duas classes de pessoas que caem neste erro, A primeira são pessoas simples que foram arrebatadas por uma cultura já existente e acabaram, inocentemente entrando na “onda”, estas são tendentes a ir abandonando a prática quando a maturidade vai chegando. A outra classe apresenta um quadro mais grave, pois tal atitude demonstra uma personalidade insegura, temerosa de que seu poder seja ameaçado, o que a faz centralizadora e egocêntrica. Pessoas que gostam muito de aparecer e insistem em impor aquilo que são, geralmente são portadores de distúrbios psicológicos e tentam compensar suas doenças emocionais, ostentando as posições que alcançaram na vida, como uma tentativa de ser melhor aceito pela sociedade em que vivem. Isto pode ser ruim para ele e principalmente para os que o cercam.

O maior presidente que o Brasil já teve é conhecido apenas por Lula e isso jamais ofuscará o serviço que ele prestou ao país e nem a pessoa que é. O maior homem que a história já conheceu, mesmo tendo títulos como Sacerdote juiz e Rei é conhecido apenas como JESUS e Este, certa vez foi capaz de perguntar a um jovem: “porque me chamas bom?” e teve também a coragem de perguntar aos seus discípulos: “Quem é o maior, o que está à mesa ou o que serve”? Logo após a pergunta ele mesmo frisou: “Entre vós eu sou como o que serve” e depois complementou ainda “Quem dentre vós quiser ser o maior que seja o menor e o que quiser ser o primeiro então que seja servo de todos”.

A ostentação é reprovada em várias partes da Bíblia por outros homens como João Batista que disse: “é necessário que eu diminua e ele (Jesus) cresça”. Também por Pedro ao dizer a Cornélio quando este se prostrou a seus pés: “Levanta-te que eu também sou homem como tu”. Mesmo com tanta informação bíblica o quadro parece que ainda está longe de mudar.

Embora muitos ainda não compreenderam, um cargo além de não ser nome, não melhora em absolutamente nada a imagem de uma pessoa perante seus semelhantes, não encobre complexos, não é remédio para a alma e nem enfeite para a personalidade. Muitos imaginam que ostentar um cargo lhe imputará respeito e reforçará aquilo que são, o que é um terrível engano, pois se o caráter condizente com o cargo não for demonstrado rapidamente, logo a primeira boa impressão desaparece. O efeito pode ser exatamente o contrário do esperado, pois as pessoas acabam regeitando tal postura, o que influenciará nos resultado dos relacionamentos e até dos projetos. 

Não precisamos nos preocupar jamais, pois tudo é uma questão de tempo. Se você fizer o seu trabalho com decência e sinceridade, inevitavelmente será amado e respeitado por isso. Saiba que as pessoas te amarão pelo que você representa na vida delas e passarão a te seguir pelo que é, o que faz e a maneira como faz. Este é um princípio de liderança que nunca mudou e nem mudará. A ostentação humilha e desvaloriza os companheiros, mas a simplicidade e a popularidade trazem saúde e vigor a qualquer projeto.

Adeneir Sousa de Oliveira

É proibido qualquer tipo de reprodução sem autorização concreta do autor

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado Campos obrigatórios são marcados *

*

Você pode usar estas tags e atributos de HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <strike> <strong>